ANTÓNIO ZAMBUJO 2018
DO AVESSO

Há o direito e o avesso. A cara e a coroa. O Yin e o Yang. Depois, felizmente para nós todos, há aqueles que, por talento e convicção, por mérito e trabalho, nos vão demonstrando que o mundo não avança a preto e branco mas a muitas cores, múltiplos tons e diferentes matizes, e que as pontes e as sínteses são possíveis e recomendáveis. António Zambujo ganhou lugar destacado entre estes arquitetos, recusando sempre – por instinto, por crença e por necessidade artística – ficar confinado a um estilo, a uma escola, a um género. Na sua cadência própria, vai desenhando um património amplo e próprio que, como Do Avesso vem reafirmar em pleno, funciona em open space, sem compartimentos acanhados, e com uma comunicação total e natural entre todos os cantos da casa. Basta que se atente, a título de exemplo, em canções novas que levaram o cantor a recorrer a uma Orquestra, a Sinfonietta de Lisboa, e noutras em que opta pelo acompanhamento de um só instrumento, seja o piano ou a guitarra acústica. Ora um dos aspetos saudáveis e distintivos deste percurso, só na aparência paradoxal, está nisto – quanto mais diversifica os seus alvos de interesse, quanto mais anula fronteiras de estereotipo, de formatação, mais António Zambujo vinca a sua personalidade musical, que se estende muito para lá da voz, em si mesma inconfundível.


Basta olhar para alguns pormenores do disco que agora, mais diretamente, nos reúne de novo à volta de António Zambujo. Comecemos pela escolha do reportório, indicadora segura da transversalidade de interesses e motivações: se o cantor reforça a sua “costela” de compositor, assinando três das melodias, apetece escrever que as companhias autorais que convocou são, como se diria do outro lado do mar, “luxo só”. Por ordem alfabética e só de Portugal: Aldina Duarte, João Monge, Jorge Benvinda, Luísa Sobral, Márcia, Mário Laginha, Miguel Araújo, Paulo Abreu Lima e Pedro Silva Martins. No mínimo, um elenco candidato a uma qualquer “seleção nacional”, nalguns casos em estreia nesta proximidade com António Zambujo, noutros em parcerias e cumplicidades de longa data. Vale a pena, ainda, perceber como aqui se congregam, sem misturas forçadas ou apressadas, algumas das figuras que devem, sem exageros, ser consideradas estruturantes em várias “regiões” da música que se vai fazendo por cá. Há mais: a paixão brasileira do intérprete – que vinha inclusivamente de um disco inteiramente dedicado a Chico Buarque, Até Pensei Que Fosse Minha – torna a manifestar-se em três frentes, recorrendo a gerações e abordagens distintas: Rodrigo Maranhão, uma reincidência, e as duplas Arnaldo Antunes/Cézar Mendes e Fernando Brant/Milton Nascimento. Esta não é, de resto, a única presença “clássica”, uma vez que se recupera um tema imortal de José Maria Lacalle (espanhol de Cádiz que se radicou nos Estados Unidos) e que está prestes e tornar-se centenário: Amapola, muito diferente da versão instrumental imortalizada por Ennio Morricone na banda sonora do filme Once Upon A Time In America, foi publicada em 1920. Por fim, outro reencontro, este com uma canção do uruguaio Jorge Drexler, o primeiro músico de língua espanhola a ganhar um Óscar de Hollywood. Com a sua habitual “generosidade”, capaz de chegar às 14 canções, António Zambujo elabora um mosaico em que as surpresas e os “reconhecimentos” vão decorrendo sem sobressaltos, antes numa construção de altíssima harmonia.


Outro sinal “exterior” do que foi a procura da novidade (sustentada, se quiserem utilizar uma palavra em voga) está na escolha de produtores e músicos. No primeiro caso, há uma troika que dispensa austeridades mas que nunca descarrila para os excessos: Nuno Rafael, Filipe Melo e João Moreira, todos com “impressão digital” já cumprida. Pode ser coincidência, mas, não as havendo, o cantor vai buscar cada um deles a um “sector” dos instrumentos – o primeiro notabilizou-se, também, nas guitarras. Ou nas cordas, se preferirem. O segundo distingue-se como pianista, sendo o piano integrante do naipe das percussões ou, mais rigorosamente, das cordas percussivas. O terceiro brilha como trompetista; ou seja, vem dos sopros. Como se não bastasse esta “representatividade” total, António Zambujo assume ainda outro desafio, com a participação da Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo. Com todas estas contribuições – a que se juntam ainda as de músicos como Bernardo Couto, Ricardo Cruz, Emilie Flop, José Miguel Conde e Ana Cláudia Serrão, e as sonoridades particulares de instrumentos como o órgão Hammond, o clavinet, o Ebow, o lap steel, a marimba, os clarinetes e o violoncelo, além de piano, guitarras e percussões –, todo o disco afina por evitar a sobrecarga, o supérfluo, qualquer deriva para o exibicionismo: o importante, o essencial, continua a reconduzir-se às melodias, às palavras, à voz, às canções.


Passamos a dispor de mais um argumento para nos deixarmos impressionar e fascinar com esta peregrinação de António Zambujo, alguém que nunca sai da nossa órbita por muito tempo. Podemos aplaudi-lo em várias modalidades de concertos, os próprios, os solidários (vai estar em mais um, na Casa da Música, no Porto, antes do final de Novembro), os partilhados (por exemplo o de 15 de Dezembro próximo, em Estarreja, com o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento), com e sem orquestra, por cá (a 23 de Fevereiro de 2019 voltará ao Coliseu do Porto, a 2 de Março transfere-se para o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 24 de Maio aporta ao Convento de São Francisco, em Coimbra) ou em multiplicadas passagens pelo estrangeiro (também em Fevereiro do ano que vem já estão agendadas escalas em Paris e no Luxemburgo). Desse gosto pelos espetáculos há, aliás, dois documentos elucidativos: Lisboa 22:38 – Ao Vivo No Coliseu, de 2013, e 28 Noites Ao Vivo Nos Coliseus, já deste ano, que dá palco à “sociedade” com Miguel Araújo, uma certidão palpitante de uma das mais impressionantes “temporadas” (um recorde, tudo o indica) de músicos portugueses nas grandes salas, sem demonstrações de desgaste ou fastio por parte do público, longe disso. Não menos importante e significativa é a disponibilidade de António Zambujo para dar uma mão – ou uma voz, para sermos exatos – a quem o solicita. Seria fastidioso tentar recuperar aqui esse rol de participações em discos de terceiros mas, referindo meia dúzia de exemplos, fica outra vez espelhado o interesse do cantor por estas aventuras: Carlão e Jorge Fernando, Dengaz e Júlio Pereira, Samuel Úria e Luísa Sobral. Que fique claro, a este propósito, o à-vontade de António Zambujo para ignorar fronteiras e remover os obstáculos do preconceito, constituindo-se sempre como uma mais-valia nas empreitadas em que se envolve.


O resto é aquilo que já sabemos e que esta caminhada singular nos vem permitindo fixar: que António Zambujo nasceu em Beja, Alentejo, a 19 de Setembro de 1975. Que atravessou uma auspiciosa e sólida infância musical – começou a estudar clarinete com apenas oito anos – e uma adolescência muito ativa nesta atividade que se tornaria o seu ofício, que acabou por fixar-se em Lisboa, onde dividiu o tempo pela experiência diária do fado e pela investida em musicais, garantindo de imediato os primeiros dados que haveriam de o fazer chegar ao lugar, tão difícil como desinteressante de “localizar” onde hoje se encontra. Estreou-se nos discos em 2002 e começou uma impressionante série de prémios e outras distinções, com natural destaque para a comenda da Ordem do Infante D. Henrique, que lhe é entregue pelo Presidente da República (em 2015). Vai-se evidenciando a sua tendência, natural e não estratégica, para não escolher uma “via única” (nem rápida) nas suas abordagens musicais: se regista em disco o convite a um grupo (Angelite) de Vozes Búlgaras, nunca disfarça uma pulsão pela música do Brasil. A sua voz leva mesmo a uma declaração enlevada de Caetano Veloso: “Quero ouvir mais, mais vezes, mais fundo (…) É de arrepiar e fazer chorar”. Com as edições internacionais dos seus álbuns, vai marcando pontos no riquíssimo e infinito universo da world music, um cadinho em que se privilegia o direito à diferença, mas nunca se afasta verdadeiramente do planeta Portugal, em que – como vimos – não estabelece nem pratica distinções académicas de género. O carinho do público e o reconhecimento da crítica vão crescendo, sem pressas mas com a cadência desejada pelo próprio cantor, que se desdobra em concertos e festivais, em Portugal e um pouco por toda a parte, com destaque para o Brasil, mas em destinos tão aparentemente improváveis como a Dinamarca, a Noruega, o Azerbeijão, Israel ou a Bulgária. Esta internacionalização justifica outros sabores para a rica “ementa” de António Zambujo – e aí fica, como paradigma, a nomeação do disco Até Pensei Que Fosse Minha para o Grammy Latino, em 2017, na categoria de Melhor Disco… de MPB.


O cancioneiro multifacetado, estimulante, tão tranquilo na forma como inquieto no conteúdo, de António Zambujo ganha um novo capítulo que, insiste-se, não precisa de rasgar para inovar, seguindo à risca as pulsões de um intérprete e autor que, a cada etapa, se tem valorizado – talvez por não se deixar prender demasiado a raízes óbvias mas limitadoras do talento e da vontade, e procurar, ao invés, dar sempre frutos sumarentos e de travo inesperado. É o oitavo disco de estúdio que o artista publica e, sabendo que o oito é o número da sorte para os chineses, fica claro que, neste particular, a “sorte grande” ganha contornos muito mais globais, porque nos toca a todos. Mais: numa época em que aprendemos a estimar e defender os nossos direitos, ganhamos outro objetivo – fazer finca-pé pelo nosso direito ao (Do) Avesso.

João Gobern
Outubro de 2018